Segundo relatos de familiares próximos, ele foi assim desde pequenino. Chamavam-lhe o pato negro, dada a sua capacidade de estar sempre contra tudo e todos, e sem precisar de apresentar argumentos válidos para tal. Anos mais tarde, quando anunciou que se ia casar, houve até quem ironizasse e questionasse contra quem! Se uns diziam que ele era mau por natureza, outros, ou melhor, outra, a sua mãe, garantia que no fundo até tinha bom coração, apesar do seu péssimo feitio. Esquecendo-se, porém, a progenitora, de que o feitio é uma das características que molda o carácter de uma pessoa; ou se tem um feitio bom ou não, não há volta a dar. Francisco nasceu no seio de uma família com posses e cedo se colocou no centro do mundo. Uma forma de estar que intrigava quem o rodeava, ou não contrariasse a atitude dos seus pais perante a vida, sempre dispostos a ajudar os mais necessitados. Mas Chiquinho era assim, tinha um feitio que não se aguentava! E quem haveria de sofrer na pele essa forma egocêntrica de ser seria o irmão que nasceria com quatro anos de diferença. As tentativas da mãe para tranquilizar o mais velho, garantindo que a chegada do mais novo em nada iria alterar o amor que sentia por ele, só serviram para desenvolver o ciúme de Francisco em relação ao próximo membro da família. Se durante a gravidez e após o nascimento do bebé, a mãe foi incansável na tentativa de incutir em Chiquinho a responsabilidade inerente ao facto de ser o irmão mais velho, a verdade é que este entendeu o esforço como o comprovativo de que ele seria sempre o preferido, o mais importante, numa “competição” vitalícia. E de mãos dadas, filho mais velho e mãe caminhariam em direção ao precipício, com a última a assumir a missão de branquear a imagem do primeiro, nem que para isso tivesse de prejudicar o marido e o filho mais novo. Nesse percurso de vida, a mãe chegou até a desejar que o sucesso do mais novo, profissional ou pessoal, não superasse o do mais velho, temendo que este não conseguisse superar tal “desgosto”. Procurando colocar-se à margem da situação, o irmão mais novo não deixava de sentir pena do mais velho, e sem o dizer, caracterizava-o de frustrado e complexado. Ou seja, de mal com a vida, utilizando uma máscara para esconder os seus medos e frustrações. Por saber que o seu irmão mais novo era quem o conhecia melhor, Francisco odiava-o e responsabilizava-o por todos os seus insucessos, assim como já tinha responsabilizado e odiado o seu pai, entretanto falecido. Depois de se ter divorciado aos 40 anos, Francisco demorou menos de um mês a encontrar a segunda mulher. Trinta dias depois já viviam juntos. Não, não se tinha apaixonado! Apenas tinha por objetivo mostrar ao seu pequeno mundo que estava bem, que era capaz de seduzir e conquistar alguém. E que, por incrível que parecesse, havia quem gostasse dele. Se a vida amorosa parecia estabilizada, pelo menos aos olhos dos outros, a profissional entrou em colapso. Negócios descabidos e investimentos mal ajuizados, colocaram Francisco às portas da falência. Precisando de dinheiro como de pão para a boca, só a mãe o poderia ajudar. Mas, para tal, e talvez com o objetivo de aliviar a consciência, dedicou-se a uma campanha contra o seu irmão, acusando-o de o mal tratar e de o ter prejudicado monetariamente após a morte do pai. A iniciativa venenosa deu os seus frutos, mas acabou por desgastar a mãe e potenciou uma doença mental diagnosticada anos antes. As pessoas que sofrem de demência devem ser poupadas ao stress, dizia a médica, e, consciente ou inconscientemente, Francisco encarregou-se de dividir a família, forçando a mãe a estar do seu lado na “luta” contra o irmão. À sua ira não escapou sequer a sua cunhada e sobrinhos, com os quais também se incompatibilizou. Após o falecimento da mãe e efetuadas as partilhas, os irmãos seguiram cada um o seu caminho e nunca mais se viram. Infeliz, o mais velho acabou por recair no vício antigo e foi alcoolizado que colocou um ponto final na sua existência ao volante de um automóvel. Chamado para reconhecer o corpo, o irmão mais novo diria: “sim, é ele, o pato negro! O filho de um Deus menor”!