Antes a morte que tal sorte

Aquele domingo era dia de despachar a filha. Entregá-la ao homem que a tinha escolhido e, assim, livrar-se do primeiro de quatro problemas. Dos outros três preocupar-se-ia mais lá para a frente, dentro de uns anos. A igreja estava linda, os convidados bem-dispostos e o patriarca agoniado. No primeiro degrau da escadaria, Francisco olhava para o céu nublado mas abrilhantado pelo seu receio. Fogo de artifício, os malditos foguetes que lhe tinham provocado tantos pesadelos nas semanas anteriores. Aldeia de costumes, naquela os antigos namorados da noiva também eram parte integrante do programa de festas. Cada foguete que explodia tinha o nome de um dos anteriores apaixonados. De braço dado com a filha, Francisco entrou na igreja e olhou para o altar que lhe parecia estar a um quilómetro de distância. Na sua cabeça, os passos iam sendo marcados ao ritmo de explosões e a vergonha já transformada em raiva transparecia no tom encarnado das faces do seu rosto. Afirmados os tradicionais “sins”, Francisco nem tempo teve de ver o beijo dos noivos. Uma forte dor no peito imobilizou-o e lançou-o ao chão. Antes de fechar os olhos pela última vez, Francisco esboçou um sorriso. Quem o conhecia bem, garantiu que tal estado de espírito se devia à resolução do primeiro problema. O segundo, terceiro e quarto, os que representavam as outras filhas, teriam, agora, de ser encarados pela viúva. Ela que se preocupasse, e, se quisesse, apanhasse as canas dos foguetes!

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